O entrevistado da vez é Daniele Miranda.

Daniele Miranda Autora dos livros Educação Bilíngue: A importância da Libras para os Professores da Educação Básica nas Escolas Públicas do Recife (versão em Língua Portuguesa e Espanhol), Educação Inclusiva: Pontos e Contrapontos para uma Escola do Futuro, O “Novo Normal” da Educação Brasileira: Caminhos para uma Escola Híbrida e Multimodal e Educação Inclusiva e Especial, Volume 1 e Volume 2. Coordenadora do GT de Educação Inclusiva – GTINC – SEDUC – Recife – PE.
1) Você foi selecionada para coordenar um dos Grupos de Trabalho do CAEduca. Nos conte um pouco como foi a sua trajetória acadêmica até esta seleção.
Iniciei minha trajetória acadêmica inspirada em minha mãe que sempre externou o desejo em ser professora, logo o estímulo pela leitura e escrita me acompanharam desde a infância através das brincadeiras infantis onde eu atuava como “professora” e minhas bonecas como “alunas”. Durante o Ensino Médio me apaixonei pela origem da vida e as ciências que permeiam esse conhecimento, além da continuidade do desejo em lecionar. Assim, cursei o normal médio e magistério concomitantemente. Prestei vestibular para Bacharelado em Ciências Biológicas e Pedagogia em duas universidades diferentes, onde fui aprovada e cursei novamente os dois cursos. A esta altura já lecionava numa pequena escola do bairro que residia. Durante longos anos minha rotina era trabalhar pela manhã e estudar nos períodos tarde e noite. Assumi minha primeira sala de aula aos 17 anos e desde este momento sempre percebi a diferença e a diversidade como ponto de ressignificação da prática pedagógica. Não se tratava mais de como se ensina, mas principalmente de como se aprende. O número de crianças com deficiência, transtornos e dificuldades de aprendizagem aumentava consideravelmente ao longo dos anos o que me interessou bastante e me fez buscar caminhos e possibilidade para o trabalho com e para a diversidade. Terminei a graduação e logo me especializei em Psicopedagogia, Educação Inclusiva e Gestão Educacional. Alguns podem me questionar o por quê da especialização em Gestão Educacional, e assim, respondo: Educação Inclusiva não se faz apenas na sala de aula ou nas escolas. A mesma criança que frequenta a escola é a mesma que transita pela cidade utilizando os equipamentos de saúde, assistência social, turismo, mobilidade urbana e etc. E para que a Inclusão Educacional nos seus mais variados suportes tenham sucesso a intersetorialidade precisa e deve funcionar. Durante minha experiência docente nunca tive uma sala de aula regular apenas com crianças neurotípicas, na maioria das vezes minha sala de aula acomodava cada vez mais crianças e adolescentes neurodivergentes. Mais tarde ao me casar, fui mãe de gêmeos e um deles nasceu com Paralisia Cerebral provocada pela prematuridade e por conta de uma hipoxia cerebral ou popularmente conhecida como : falta de oxigenio no cérebro. Sem recursos e nem equipamentos de saúde que identificassem, diagnosticassem e intervissem de maneira global e sistêmica, aprofundei meus estudos em intervenção e estimulação precoce tendo como aliada a AACD durante este processo. Criei seu primeiro programa de intervenção precoce e obtendo sucesso, logo surgiram o segundo e o terceiro. Minha experiência no Chile foi inovadora, na perspectiva de perceber e intervir no cenário educacional de maneira efetiva, inovadora o que me inspirou a perceber que a Universidade além de dialogar com a Educação Básica, Doutores e Mestres continuam a atuar nas escolas: seja na docência, coordenação ou gestão. Trazendo e levando contribuições significativas para a implementação de políticas públicas eficazes, reais, democráticas e inovadoras que inspiram ao meu ver outras práticas da América Latina. Daí em diante, não parei de pesquisar e investir não só em minha formação acadêmica, mas principalmente na formação continuada de pais, famílias e comunidade escolar, em busca do entendimento e da quebra de paradigmas no que tange principalmente as barreiras atitudinais. Diante do exposto, fui convidada a assumir cargos e funções estratégicas para fomentar e implementar Políticas Públicas na Educação Básica da Secretaria de Educação do Recife. Durante 8 anos de Gestão avançamos em Normativas que políticas públicas a cerca de: Criação das Salas Bilíngues para surdos; Garantia do Professor do Atendimento Educacional Especializado na Unidades Educacionais; Garantia do Auxiliar de Atendimento e Desenvolvimento do Estudante Especial – AADEE; Garantia de intérprete para estudantes surdos que não encontram-se matriculados nas Salas Bilíngues; Implementação da Política de Ensino da Rede Municipal; Implementação do Transporte Escolar Inclusivo para estudantes com deficiência e mobilidade reduzida; Garantia do Vale transporte para o Estudante de Anos Finais bem como para os pais ou responsáveis pelo estudante com deficiência ou transtorno. Assim, atualmente coordeno o GTINC – Grupo de Trabalho de Educação Inclusiva ministrando formação continuada de maneira interseccional (desde a Educação Infantil até a Educação de Jovens e Adultos), tendo como foco o desenvolvimento integral do ser humano e como base nas Neurociênciase Política Nacional na Perspectiva Inclusiva. Não obstante a isso, também atuo nas discussões representando a Secretaria de Educação do Recife na elaboração do Plano Municipal contra o Enfrentamento da Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes da Cidade do Recife no que tange a Exploração Sexual e Comercial de Crianças e Adolescentes do Recife (ESCCA).
2) O que mais lhe chamou atenção no CAEduca?
A excelência no trabalho, fomento e divulgação de experiências relevantes e exitosas em Educação, contribuindo para a mudança de comportamento dos agentes envolvidos bem com da transformação social.
3) A temática do seu GT é fundamental para pensar a educação de maneira interdisciplinar. O que você concebe como principal desafio da temática?
Analisando o território brasileiro, sua multiculturalidade bem como sua diversidade, pensar, agir e implementar Políticas Públicas que pautem na garantia de direitos humanos, sociais e educacionais para todas as pessoas sem distinção de etnia, gênero, condição social, física, intelectual , emocional e motora por si só, já é desafiador. Ao focarmos no GT 15 – EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS SOBRE VIOLÊNCIA DE GÊNERO, o grande desafio é atender com equidade todas as crianças, jovens, adolescentes e adultos dentro e fora da comunidade escolar sem distinção, abordando a construção da identidade do sujeito, como premissa de respeito e acessibilidade a todas as políticas públicas na amplitude de seus direitos conforme os ditames educacionais, humanos, sociais e inclusivos. A formação continuada do professor e o acesso a informação por parte do estudante e toda a comunidade educacional, é senão a grande mola propulsora para que as engrenagens funcionem no chão da escola, assim como em todos os espaços sociais. Compreender o uso das tecnologias, torna-se um grande marcador, no entendimento das violências que impactam na construção social das identidades de gênero frente a modernidade e a pósmodernidade. Diante do exposto, precisamos compreender o processo e o caminho que percorremos para chegarmos à garantia de direitos que corroboram com a construção da identidade, autonomia e alteridade do sujeito, entendendo as diversas pautas e veículos de violências historicamente vivenciadas. Cabe a nós refletirmos sobre o que queremos construir como ser social, numa sociedade que deveria primar por ser justa e igualitária, respeitando o desenvolvimento integral do ser humano.
4) Bom, outros pessoas vão se espelhar em você para participarem das próximas iniciativas do CAEduca. Que dica final você daria para que possam produzir textos de qualidade e inovadores?
A minha dica final é: escrevam com propósito. Um bom texto nasce da clareza sobre o que queremos comunicar e do desejo genuíno de impactar o leitor. Leiam bastante, busquem diferentes referências, mas não tenham medo de inovar e de colocar sua própria identidade no que produzem. A originalidade está justamente no jeito único de cada um enxergar o mundo. E, acima de tudo, revisem com carinho: um texto bem cuidado transmite respeito e valor. Sejam criativos, ousados e, principalmente, autênticos.
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