O entrevistado da vez é Flavio Albuquerque Neto.

Flavio Albuquerque Neto Atuou como pesquisador no Senso de Leitura nos Sistemas Prisional e Socioeducativo (CNJ, 2022) e no Diagnóstico de Segurança Pública (Senasp/MJ, 2019). Organizador da coletânea “História das Prisões no Brasil” (2 vols; Editora Rocco, 2009; Editora Anfiteatro, 2017).
1) Você foi selecionada para coordenar um dos Grupos de Trabalho do CAEduca. Nos conte um pouco como foi a sua trajetória acadêmica até esta seleção.
Minha trajetória acadêmica se construiu na interface entre a História e o estudo das prisões, e foi justamente nesse percurso que a educação prisional se impôs como tema de interesse. Como historiador, sempre me interessei por compreender as instituições totais — sob influência teórica de Erving Goffman — e o modo como elas moldam a identidade dos indivíduos. Ao longo de projetos de pesquisa e extensão, tive contato direto com diversas unidades prisionais de Pernambuco, o que me aproximou concretamente das questões educacionais dentro do cárcere. Essa vivência de campo, somada à pesquisa histórica, me levou a atuar em estudos como o Senso de Leitura nos Sistemas Prisional e Socioeducativo (CNJ, 2022), o que certamente contribuiu para meu interesse no tema.
2) O que mais lhe chamou atenção no CAEduca?
O que mais me chamou atenção foi a proposta de pensar a educação de forma plural e interdisciplinar, dialogando com áreas como Direito, Sociologia, Tecnologias, entre outras. Esse formato é especialmente valioso para um tema como a educação prisional, que não pode ser compreendido apenas por um viés pedagógico estrito: ela envolve também questões de direitos humanos, de gestão pública e de reinserção social (tema caro aos estudiosos do tema). Um evento com essa amplitude de diálogo e com alcance nacional cria justamente o espaço que faltava para dar visibilidade a um campo de pesquisa ainda pouco explorado no Brasil.
3) A temática do seu GT é fundamental para pensar a educação de maneira interdisciplinar. O que você concebe como principal desafio da temática?
NO principal desafio da educação prisional é ser tratada, ao mesmo tempo, como direito e como instrumento de transformação — e não apenas como uma obrigação formal do sistema penitenciário. Não basta garantir vagas em salas de aula dentro das unidades prisionais; é preciso pensar em formação de educadores para esse contexto específico, em currículos que dialoguem com a realidade do cárcere do mundo externo a ele, be, como pensar em políticas de remição de pena pelo estudo que de fato se sustentem no tempo. Assim como ocorre com a segurança pública, a educação prisional exige um olhar inter, multi e transdisciplinar, que envolva gestão pública, saúde, assistência social e o próprio sistema de justiça, sob risco de reproduzirmos discursos simplistas sobre ressocialização sem instrumentos concretos para realizá-la.
4) Bom, outros pessoas vão se espelhar em você para participarem das próximas iniciativas do CAEduca. Que dica final você daria para que possam produzir textos de qualidade e inovadores?
Tendo em vista minha trajetória, diria que a qualidade de um texto acadêmico começa antes da escrita: está na leitura constante, na frequência a bibliotecas, periódicos e repositórios institucionais, e no contato com produções recentes de programas de pós-graduação. Além disso, para quem se dedica a temas interdisciplinares, é essencial não impor barreiras epistemológicas entre as áreas, transitando entre elas sem receios. Por fim, destacaria a capacidade de comunicação clara: um texto inovador é também aquele capaz de traduzir ideias complexas para públicos diversos, sem perder rigor.
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