O entrevistado da vez é Antonio Archangelo.

Antonio Archangelo é Criador do Método Camões e da Rede Camões de Jornais Escolares; pesquisador do GESTELD/Unesp/CNPq; jornalista com experiência como Editor-Chefe do Diário do Rio Claro e Editor de Política do Jornal Cidade de Rio Claro; editor do Portal Archa; e consultor sênior de comunicação em políticas públicas e educação. Sua trajetória articula educação pública, pesquisa acadêmica, jornalismo, inovação pedagógica, gestão pública e comunicação estratégica.
1) Você foi selecionada para coordenar um dos Grupos de Trabalho do CAEduca. Nos conte um pouco como foi a sua trajetória acadêmica até esta seleção.
Minha trajetória acadêmica é, em grande medida, fruto das políticas públicas de democratização do acesso ao ensino superior. Concluí minha primeira graduação como bolsista do Programa Escola da Família, política afirmativa do Estado de São Paulo que possibilitou minha entrada e permanência na universidade. Por isso, antes mesmo de me tornar pesquisador, experimentei concretamente o que uma política educacional pode produzir na trajetória de uma pessoa. Minha formação, desde então, nunca esteve separada da experiência profissional: passei pela escola pública, pelo jornalismo e pela comunicação, pela gestão e pelo serviço público, construindo paralelamente uma trajetória como escritor, compositor, autor de livros e poesias e produtor de conhecimento. Na pós-graduação, esse percurso ganhou sistematização científica, primeiro no mestrado em Gestão da Clínica pela UFSCar e, posteriormente, no doutorado em Educação Escolar pela Unesp, onde passei a investigar de forma mais profunda as relações entre educação, discurso, subjetividade, autoria e tecnologias. A Rede Camões, construída a partir da escola pública, tornou-se também campo de investigação e reflexão acadêmica. Hoje, como pesquisador do GESTELD/Unesp, percebo a coordenação do GT 03 – Tecnologias de Formação do Sujeito no CAEduca como continuidade dessa trajetória: da oportunidade proporcionada por uma política pública à responsabilidade de ajudar a construir novos espaços de produção, circulação e democratização do conhecimento.
2) O que mais lhe chamou atenção no CAEduca?
O que mais me chamou atenção no CAEduca foi a possibilidade de construir um espaço de diálogo que não fique restrito às fronteiras tradicionais das áreas de conhecimento. Minha própria trajetória é bastante interdisciplinar: passei pela comunicação, educação, saúde coletiva, gestão e políticas públicas, e foi justamente nesses cruzamentos que encontrei algumas das perguntas que hoje orientam minhas pesquisas. Por isso, identifico-me com a proposta de um congresso que reúne diferentes pesquisadores, instituições, territórios e perspectivas em torno dos desafios contemporâneos da educação. Também me interessa especialmente a abertura para pesquisadores em diferentes momentos de suas trajetórias. A ciência se fortalece quando conseguimos criar espaços em que quem está começando possa dialogar com pesquisadores mais experientes e em que diferentes saberes possam efetivamente circular. Para mim, o CAEduca tem essa potência: mais do que apresentar trabalhos, construir encontros capazes de produzir novas perguntas, redes e possibilidades de pesquisa.
3) A temática do seu GT é fundamental para pensar a educação de maneira interdisciplinar. O que você concebe como principal desafio da temática?
Acredito que o principal desafio seja compreender que as tecnologias de formação do sujeito não se resumem às tecnologias digitais. A escola, a linguagem, a mídia, os discursos, as práticas pedagógicas, os processos avaliativos e as próprias relações de poder também participam continuamente da produção de modos de pensar, agir e compreender a si mesmo e o mundo.
Essa questão atravessa minha trajetória de pesquisa e ganhou centralidade no doutorado, quando investiguei, a partir da experiência da Rede Camões, as relações entre práticas discursivas, cuidado de si, autoria, multiletramentos e educomunicação.O grande desafio, portanto, é deslocar a discussão educacional de uma perspectiva meramente instrumental — preocupada apenas com quais ferramentas utilizar ou quais conteúdos ensinar — para uma pergunta mais profunda: que sujeitos estamos contribuindo para formar por meio das práticas educacionais que produzimos?
Em um contexto marcado por inteligência artificial, plataformas digitais, circulação acelerada de discursos e novas formas de produção de subjetividades, essa pergunta se torna ainda mais urgente. Pensar as tecnologias de formação do sujeito significa discutir educação, comunicação, ética, cultura, política e tecnologia conjuntamente, mas também reconhecer a possibilidade de autoria, resistência e transformação dos próprios sujeitos diante desses dispositivos..
4) Bom, outros pessoas vão se espelhar em você para participarem das próximas iniciativas do CAEduca. Que dica final você daria para que possam produzir textos de qualidade e inovadores?
Minha principal dica é: não comecem procurando uma resposta; comecem encontrando uma pergunta que realmente os incomode. Minha trajetória acadêmica foi construída muito a partir disso: transformar experiências concretas da escola pública, da comunicação, da gestão e das políticas públicas em problemas que mereciam ser investigados. Um texto inovador não precisa inventar um tema absolutamente novo. Muitas vezes, a inovação está em olhar para um problema conhecido de outro lugar, estabelecer relações ainda pouco exploradas ou permitir que sujeitos e experiências historicamente pouco ouvidos também participem da produção do conhecimento.
Ao mesmo tempo, criatividade não substitui rigor. É preciso ler, dialogar com outros pesquisadores, explicitar escolhas metodológicas e reconhecer os limites daquilo que podemos afirmar. E acrescentaria algo que considero especialmente importante hoje: não tenham medo de ter autoria. Em tempos de inteligência artificial generativa, produzir um texto tecnicamente correto tornou-se relativamente mais fácil; produzir pensamento próprio, intelectualmente responsável e capaz de fazer boas perguntas continua sendo profundamente humano. Um bom trabalho científico deve deixar evidente não apenas o que o pesquisador estudou, mas por que aquilo precisava ser estudado e que nova possibilidade de compreensão sua pesquisa oferece ao mundo.
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