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Entrevista com Professor Doutor Vicente Henrique de Oliveira Filho – Coordenador de GT do CAEduca 2026

O entrevistado da vez é Professor Doutor Vicente Henrique de Oliveira Filho.

Professor Doutor Vicente Henrique de Oliveira Filho Vicente Henrique de Oliveira Filho é piauiense, neurodivergente nascido em Miguel Alves (PI). É doutor em Educação Matemática pela PUC-SP, com foco em Tecnologias e Meios de Expressão em Matemática, e mestre em Educação em Ciências e Matemática pela PUCRS. Possui licenciatura em Ciências com habilitação em Matemática e em Pedagogia pela UEMA, além de especializações em Matemática, Educação a Distância e Tecnologia em Educação. Estágio Pós-doutoral na UNIFESSPA (2023-2025). Membro da Sociedade Brasileira de Educação Matemática (SBEM), é criador do conceito TPACKI – Conhecimento Imaginário Criativo Tecnológico e Pedagógico do Conteúdo. Em sua trajetória, alia pesquisa acadêmica, imaginação e poesia em prol da educação e da linguagem. Autor do livro, O Som e a Sílaba, selo Ventania, publicado pela Ases da Literatura, é uma fábula linguística sobre o nascimento das palavras, o poder da escuta, os caminhos da alfabetização e o valor da expressão criativa. Ao lado de personagens como o Velho Ditongo, Dona Reticiência e Vó Palpitante, os protagonistas descobrem que toda palavra é feita de encontro: entre estrutura e emoção, entre som e sentido. Publicou pela Livraria da Fisica As Crônicas de um professor que ensina matemática. Também autor do livro o Mundo fala por meio dos símbolos pela Editora Minimalismos.

1) Você foi selecionada para coordenar um dos Grupos de Trabalho do CAEduca. Nos conte um pouco como foi a sua trajetória acadêmica até esta seleção.

Minha trajetória acadêmica começou de maneira bastante convencional – ou pelo menos assim imaginei por muito tempo. Ingressei no curso de Licenciatura em Matemática movida pela paixão pelos números, pelos padrões, pela lógica que organiza o mundo. Durante a graduação, porém, percebi que ensinar Matemática não era apenas transmitir conteúdos; era, sobretudo, compreender os contextos históricos, sociais e culturais em que esses saberes foram produzidos, sistematizados e, eventualmente, inseridos nas salas de aula brasileiras.

Foi nesse percurso que me aproximei das discussões sobre História da Educação. O mestrado foi um momento decisivo: escolhi investigar como o ensino de Matemática se constituiu historicamente no Brasil ao longo do século XX, com ênfase nos materiais didáticos e nas políticas curriculares que moldaram práticas pedagógicas em diferentes regiões do país. A pesquisa exigiu uma imersão em arquivos, em documentos históricos, em fontes primárias que até então pareciam distantes do universo das ciências exatas. O doutorado aprofundou esse olhar. Passei a investigar as relações entre os movimentos de renovação pedagógica – como o Movimento da Matemática Moderna – e suas repercussões na formação docente no Brasil, sempre dialogando com referenciais da historiografia da educação. Essa trajetória me ensinou que não há separação rígida entre o o quê se ensina e o por quê e como determinados saberes chegaram à escola. A seleção para coordenar o GT 04 no CAEduca 2026 foi, para mim, o reconhecimento de um caminho que nunca foi linear, mas que sempre foi apaixonado.

2) O que mais lhe chamou atenção no CAEduca?

O CAEduca me surpreendeu, antes de tudo, pela sua capacidade de articular rigor acadêmico e acolhimento plural. Muitos eventos científicos tendem a privilegiar determinadas filiações teóricas ou a reproduzir hierarquias que afastam pesquisadores em formação. O CAEduca propõe algo diferente: um espaço genuinamente dialógico, onde professores da educação básica, estudantes de pós-graduação, docentes universitários experientes e novos pesquisadores se encontram em condições de troca horizontal.

Outro aspecto que me tocou profundamente foi a presença marcante de pesquisadores de diferentes regiões do Brasil. A educação brasileira é diversa, territorialmente extensa e historicamente desigual. O fato de o CAEduca conseguir reunir vozes do Norte, do Nordeste, do Centro-Oeste, do Sul e do Sudeste em uma mesma arena de debate representa, em si mesmo, um ato político e epistemológico relevante. Não se trata apenas de representatividade simbólica – trata-se de reconhecer que a história da educação brasileira não pode ser contada a partir de um único centro.

O CAEduca me ensinou que um evento acadêmico pode ser, ao mesmo tempo, um espaço de produção científica qualificada e um ambiente de pertencimento coletivo. Isso é raro e precioso. Além disso, a organização dos Grupos de Trabalho por temáticas específicas permite que as discussões alcancem uma profundidade que eventos mais generalistas raramente conseguem. No GT 04, em particular, percebo que os participantes chegam motivados a problematizar, a contestar certezas cristalizadas e a propor novas leituras sobre o passado educacional brasileiro. Esse espírito investigativo me mobiliza enormemente.

3) A temática do seu GT é fundamental para pensar a educação de maneira interdisciplinar. O que você concebe como principal desafio da temática?

A temática da História e Historiografia da Educação Brasileira é, por natureza, interdisciplinar. Ela não pode ser pensada de forma isolada, como se a história da educação fosse um campo autocontido, impermeável às contribuições da sociologia, da antropologia, da filosofia, da política, da economia e – no nosso caso específico – da Educação Matemática. Essa porosidade disciplinar não é uma fraqueza; é, ao contrário, o que torna o campo tão fértil e tão necessário.

A interdisciplinaridade, contudo, não deve ser confundida com superficialidade. Um dos riscos recorrentes nos trabalhos submetidos ao GT é a utilização de referenciais de diferentes áreas sem o devido aprofundamento teórico-metodológico. Citar autores da historiografia, da filosofia ou da antropologia não faz um trabalho interdisciplinar por si só – é preciso que esses referenciais dialoguem de forma coerente e que contribuam efetivamente para a construção do argumento central da pesquisa.

Um aspecto que frequentemente emerge nas discussões do GT 04 é a relação dos pesquisadores com as fontes históricas. A pesquisa em história da educação exige um trabalho criterioso de identificação, seleção, interpretação e crítica das fontes – sejam elas documentos oficiais, livros didáticos, fotografias, depoimentos orais, atas de reuniões pedagógicas, correspondências entre professores ou qualquer outro vestígio do passado educacional. No Brasil, o acesso a arquivos históricos é desigual. Há estados com acervos bem conservados e instituições comprometidas com a preservação da memória educacional; há, por outro lado, regiões onde documentos importantes estão em risco de deterioração ou já foram perdidos definitivamente. Esse contexto impõe ao pesquisador uma responsabilidade adicional: não apenas interpretar as fontes disponíveis, mas também contribuir para que outras fontes sejam identificadas, catalogadas e preservadas.

4) Bom, outros pessoas vão se espelhar em você para participarem das próximas iniciativas do CAEduca. Que dica final você daria para que possam produzir textos de qualidade e inovadores?

O CAEduca é um espaço que existe porque pesquisadores decidiram que vale a pena se reunir, debater, divergir e construir coletivamente. Cada pessoa que submete um trabalho, que participa de um GT, que faz uma pergunta ao final de uma apresentação está contribuindo para que esse espaço continue existindo e se renovando.

Quero dizer aos futuros participantes que a sensação de “não estou pronto(a)” é absolutamente normal – e que ela nunca desaparece completamente, mesmo depois de anos de pesquisa. O que muda, com o tempo, é a nossa relação com essa sensação. Aprendemos a conviver com a incompletude do conhecimento, a valorizar as dúvidas como motores da investigação e a confiar no processo coletivo de construção do saber.

Participar de um Grupo de Trabalho como o GT 04 é uma oportunidade rara de colocar sua pesquisa em contato com outras perspectivas, de receber retornos qualificados de pares e de perceber que suas inquietações são compartilhadas por outros pesquisadores. Esse reconhecimento tem um valor imenso, especialmente para quem está nos primeiros anos da vida acadêmica.

Encerro esta entrevista com uma convicção que orienta minha trajetória acadêmica há muitos anos: estudar a história da educação brasileira não é um exercício de nostalgia ou de erudição desinteressada. É, antes de tudo, um ato político comprometido com a transformação do presente. Quando investigamos como o ensino de Matemática foi constituído historicamente, quando damos voz a professoras que a historiografia oficial ignorou, quando questionamos os pressupostos que moldaram nossas políticas educacionais – estamos, ao mesmo tempo, interpelando o presente e imaginando futuros possíveis. O GT 04 do CAEduca 2026 é um espaço para essas conversas fundamentais. Espero que muitos pesquisadores, em diferentes estágios de suas trajetórias, encontrem nele um lugar de pertencimento, de rigor e de esperança. A educação brasileira tem uma história rica, complexa e ainda em grande parte por contar. Que possamos, juntos, contribuir para narrá-la com a honestidade e a profundidade que ela merece.

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